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Filipa Taborda
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luz com pés de lã

Luz com pés de lã

luz com pés de lã
entra sem pedir licença
envergonhada com a sua presença
mostra-se apenas no vazio deixado
não conta que a notem
a espreitar tímida por trás do velado,
que se espelha profundo
sem cor, apenas vulto

toca levemente os planos
brinca com o vento
a criar um bailado calado
dançado com instinto, e sinto
fingir que também não a percebo
olhar demorado por trás do pano
cenário apagado
espetáculo demorado

perceber os seus passos
o seu tímido tato
permanentemente leve
copiosamente breve

ouvir o silêncio das notas tocadas
respirar, girar o assento
não para olhar diretamente
senão para sentir discretamente
enquanto faz o seu ensaio
calcula que ninguém assista
vai saindo tal como entrou
arrasta o manto de veludo ocre

talvez não a pressintam
talvez finjam
mas eu espero-a amanhã à mesma hora
e nas tardes que puder,
se vier
tocar onde pensa que não chega

luz tardia e esguia
a esgueirar-se para o regaço
à procura de um colo
onde, por fim, pousar o cansaço